O pedido
"Oh, como sonhei coisas impossíveis." William Blake
Conto de Fernanda Young, retirado do livro As pessoas dos livros
Voar não era, nem jamais havia sido, um privilégio. Poderia mesmo ser considerado desventura, já que machos nascidos com asas teriam de trabalhar como atravessadores. Levando cargas e passageiros, de um canto a outro onde houvesse água. E apenas sobre águas os homens-pássaros poderiam voar, proibidos terminantemente de passar por cima da terra; pois a terra, todos sabiam, foi feita para se caminhar. Não era, contudo, um emprego assim tão ruim, havia piores. E, como asas em homens já não causavam susto algum, muitos deles chegavam a constituir família, alcançando uma vida normal. Ugli não era um homem-pássaro desses; descendia de outra linhagem. Família paterna de camponeses saudáveis. A materna, uma gente de pés e mãos grandes, com uns rostos bochechudos, que pareciam ter nascido já lanhados de sol. Antes de Ugli, outras cinco crianças se espremiam pela casa, todas fortes e bem desenvolvidas. E, para espanto de todos, esse sexto bebê, um lindo bebê, tinha vindo com asas. Seu pai, homem de origem rude, demorou poucos instantes para concluir-se desonrado e traído. Expulsando a mulher de casa, junto com a criança. A criança alada. Que ainda estava em seus braços, numa beira de estrada, quando ela foi achada sem vida, vítima do parto difícil. O recém-nascido foi encaminhado para uma família de homens-pássaros da região e, desde a mais tenra infância, treinado para cumprir o seu dever. Antes de completar 12 anos, Ugli teria atravessado os mais longos rios, oceanos e tormentosas quedas-d'água. Cresceu rápido demais por isso, tornando-se um jovem sério e encurvado. Com um tipo de tristeza que lhe deu olhos constantemente chorosos. A ponto de dizerem que toda aquela água, que ele havia atravessado, vivia morna, represada em seu olhar profundo. Fez-se um homem adulto sem que essa melancolia o largasse. Talvez a compreensão do próprio abandono tenha feito dele um ser solitário. Vivia para o trabalho, do qual não se queixava, mas pode ser que voar, para Ugli, fosse exercitar a memória do desprezo. E, como não conhecia qualquer afeto, nem aquilo que o envolve, nunca teve amigos para dividir sua dor, nem vontade de casar, nem razão para sorrir. Um dia, certo dia, acordou antes do amanhecer, como de costume, e caminhou os 11 quilômetros, que separavam sua cabana do rio onde trabalhava, mais rápido que de costume. Lá chegando, vestiu a leve túnica bege, presente dos pais adotivos, e ficou como sempre ficava, a esperar por acontecimentos. Sentia, porém, algo de diferente. Era um dia chuvoso, com um vento frio - mas Ugli estava habituado a enfrentar tempos ruins, mesmo tempestades; era, por esse motivo, considerado o melhor atravessador de toda a área. Não se abalou, portanto, quando avistou a enorme comitiva que se aproximava, em pomposa lentidão. No meio dela, impondo a ela sua cadência, vinha um homem bem velho. Talvez o mais velho que Ugli já havia visto. Parecia um papel amassado, de tão magro e enrugado. Seus cabelos e barba, longos, intensamente brancos, eram o que mais parecia pesar em seu frágil corpo. De fortes, realmente, só os olhos, vivos, brilhantes, a espelhar enorme sabedoria. Ugli estava certo: tratava-se de um sábio. Foi informado por um dos servos de que ali se encontrava o mais velho homem do mundo, possuidor de poderes nunca explicados. E que, se Ugli, ao transportá-lo, o deixasse cair, ou sofrer qualquer espécie de dano, por menor que fosse, um arranhão que fosse, ele iria morrer. Ele, Ugli. Mas se, ao contrário, o ancião alcançasse a outra margem do rio sem que lhe chegasse sequer uma gota de água ao rosto, o homem-pássaro poderia pedir o que bem quisesse. Por maior ou mais impossível que fosse o pedido, seria realizado imediatamente. Ugli não disse nada; apenas ofereceu as costas, como oferecia aos demais passageiros. Foi quando ouviu pela única vez a fraca voz do velho.
- Tens certeza de que queres me levar? Se não o quiseres, nada lhe acontecerá.
- Pode subir.
Abriu suas asas com vigor, deixando claro que, para ele, não havia o que temer. Este era o seu trabalho, aquilo que fez a vida inteira. Estava com 35 anos, a grande maioria deles passara voando, sem que ocorresse um acidente. Não poderia, contudo, deixar de estar um tanto apreensivo. Não pela possibilidade da morte - não amava a vida o suficiente para tornar-se um covarde. Seu nervosismo vinha da dúvida sobre qual pedido fazer. "Nunca mais voar, ficar livre destas malditas asas." Este, seu primeiro pensamento; seguido por vários outros, dentre eles rever a verdadeira família e ser por ela aceito. Pensou até em qual seria seu desejo mais íntimo, aquele que jamais pediria. "Amar, amar algo ou alguém; não sou capaz de amar." O velho terminou de ser afivelado em suas costas, com três largos cinturões de couro, e Ugli não conseguia decidir o pedido da outra margem. Bateu asas sem decidir, deixando o chão com incomum olhar pensativo, e logo sentiu aquele enorme peso. "Como um velho tão magro pode pesar mais que um touro? Já transportei touros muito mais leves!" Ugli entendeu que o velho pesava de tanta sabedoria, e que sua mente carregada era, sem dúvida, a carga que mais lhe havia doído nos ombros. Atingindo metade do rio, viu-se suando, com as gotas escorrendo por todo o corpo, e a túnica ficando encharcada, e seus olhos deixando escorrer lágrimas de dor. Sentia os gordos pingos brotando e despencando lá embaixo; os músculos todos ardendo, os pulmões clamando por mais oxigênio. E, dessa maneira, ofegante, exaurido, quase entregue, sem que pensasse, o pedido que faria lhe veio à mente. Tão clara e fortemente que fez Ugli prosseguir, quando tudo já parecia perdido. Bateu as asas com vontade, ganhou altura e continuou seu percurso em rumo certeiro. A certeza do que queria era a força de que precisava, ele, enfim, compreendeu. Restava-lhe ainda boa parte da travessia, mas Ugli sentia que poderia, agora, Faze-la novamente, e quantas vezes fossem necessárias. Percebia o seu corpo sendo invadido por uma motivação estranha, algo que traduziria como felicidade. Se a felicidade pode ser brutal, a dele foi. Erguia com decisão sua cabeça, empurrava sua alma esparsa pelo caminho em frente. Aquela vida, a reles vida, era de súbito algo diferente, e ele a desejava por inteiro. O velho, através da pele enrugada, das veias saltadas, dos ossos cansados, tinha escutado o pedido de Ugli. Sem que ele precisasse dizer uma palavra. E estava cumprindo a sua parte do trato. Quando os dois chegaram ao outro lado, o Ugli que tocou o solo não tinha mais os olhos de quem quer chorar. Havia sido presenteado com o esquecimento.